sábado, 18 de maio de 2013

Os três textos da apostila

Texto 1
Insegurança
O adolescente se olha no espelho e se acha diferente. Constata facilmente que perdeu aquela graça infantil que, em nossa cultura, parece garantir o amor incondicional dos adultos, sua proteção e solicitude imediatas. Essa segurança perdida deveria ser compensada por novo olhar dos mesmos adultos, que reconhecesse a imagem púbere como sendo a figura de outro adulto, seu par iminente. Ora, esse olhar falha: o adolescente perde (ou, para crescer, renuncia) a segurança do amor que era garantido à criança, sem ganhar em troca outra forma de reconhecimento que lhe pareceria, nessa altura, devido.
          Ao contrário, a maturação, que para ele é evidente, invasiva e destrutiva do que fazia sua graça de criança, é recusada, suspensa, negada. Talvez haja maturação, lhe dizem, mas ainda não é maturidade. Por consequência, ele não é mais nada, nem criança amada, nem adulto reconhecido.
         O que vemos no espelho não é bem nossa imagem. É uma imagem que sempre deve muito ao olhar dos outros. Ou seja, me vejo bonito ou desejável se tenho razões para acreditar que os outros gostam de mim ou me desejam. Vejo, em suma, o que imagino que os outros vejam. Por isso o espelho é ao mesmo tempo tão tentador e tão perigoso para os adolescentes: porque gostaria muito de descobrir o que os outros veem nele. Entre a criança que se foi e o adulto que ainda não chega, o espelho do adolescente é frequentemente vazio. Podemos entender então como essa época da vida pode ser campeã em fragilidade de autoestima, depressão e tentativas de suicídio.
         Parado na frente do espelho, caçando as espinhas, medindo as novas formas de seu corpo, desejando e ojerizando seus novos pelos ou seios, o adolescente vive a falta do olhar apaixonado que ele merecia quando criança e a falta de palavras que o admitam como par da sociedade dos adultos. A insegurança se torna assim o traço próprio da adolescência.
         Grande parte das dificuldades relacionais dos adolescentes, tanto com os adultos quanto com seus coetâneos, deriva dessa insegurança. Tanto uma timidez apagada quanto o estardalhaço maníaco manifestam as mesmas questões, constantemente à flor da pele, de quem se sente não mais adorado e ainda não reconhecido: será que sou amável, desejável, bonito, agradável, visível, invisível, oportuno, inadequado etc.?
                                                                CALLigAriS, Contardo. A adolescência. São Paulo: Publifolha, 2000. p. 24-25.
Texto 2
Atitudes que os pais devem adotar no tema das relações entre moças e rapazes adolescentes
 
          É muito conveniente o relacionamento entre moças e rapazes ao longo da adolescência. As diversas fases que descrevemos cumprem uma função necessária no desenvolvimento da amizade e na preparação do futuro amor. Por isso, os pais devem evitar preconceitos e atitudes de defesa prévia que dificultem o relacionamento normal entre moças e rapazes adolescentes.
         O relacionamento nos grupos mistos fomenta o desenvolvimento da virilidade e da feminilidade e ajuda a conhecer as pessoas do outro sexo. Rapazes e moças aprendem a conviver e adquirem qualidades complementares.
         Tudo isto não significa que a missão dos pais se reduza a permitir, sem nenhuma orientação e controle, o relacionamento do seu filho ou da sua filha com adolescentes do outro sexo. Acabamos de ver os riscos que existem nesse tipo de convivência. Esses riscos exigem um trabalho preventivo por parte da família e uma orientação dos filhos em cada situação concreta.
         O trabalho preventivo deve começar muitos anos antes da adolescência, por meio de uma educação sexual progressiva e correta no âmbito familiar. Esta tarefa corresponde aos pais, por serem colaboradores diretos de deus na origem da vida e por serem os primeiros e principais educadores. Os próprios filhos esperam que sejam eles quem lhes explique o mistério da vida. É extremamente necessário que os pais não cedam à moda atual que pretende eximi-los dessa responsabilidade com o pretexto de que não estão preparados. Nos casos – poucos – em que lhes possa faltar essa preparação, a atitude sensata e útil consiste em que os seus colaboradores (professores e tutores) os ajudem a adquiri-la, não que pretendam substituí-los.
         Uma educação sexual correta não deve limitar-se a informar. É cada vez mais frequente que se ministre às crianças e adolescentes uma informação excessiva para a capacidade de compreensão de cada idade, e que por outro lado falte completamente o enfoque educativo. É preciso situar o biológico no contexto do amor espiritual, como algo que está a serviço da plenitude da pessoa e por isso faz parte dos planos de deus. E ao mesmo tempo é preciso fortalecer o autodomínio, o respeito pelas pessoas do outro sexo e as virtudes do pudor e da castidade.
         A educação sexual é apenas um dos aspectos da educação para o amor. Os filhos aceitam-na e entendem-na melhor quando se vive na família um clima de amor, em que o amor generoso e sacrificado dos esposos é um ponto de referência chave. Se ao longo da infância os filhos receberem essa ajuda para descobrirem a função do sexo dentro da realidade global da pessoa, o risco de padecerem de curiosidades doentias e de sentimentos de culpa injustificados quando chegar a puberdade será muito menor.
         A educação progressiva da vontade, por meio da aquisição de todas as virtudes e especialmente, no nosso caso, das do pudor e da pureza, será um ponto de apoio muito importante para evitar as manifestações prematuras da sexualidade durante a adolescência.
         Durante a etapa do “amor platônico”, normalmente não surgem problemas nas relações menina-menino. Os pais, no entanto, deverão estar atentos à sua evolução, já que nunca se podem descartar dois possíveis riscos: o prolongamento dessa etapa e a sedução.
         Quando o amor idealizado se prolonga para além da adolescência, transforma-se numa realidade anômala. É um problema que aparece com mais frequência entre as meninas, uma vez que nelas a imaginação tem um papel mais importante do que nos rapazes: muitas delas constroem um amante imaginário, um amante-ídolo, um amante-pretexto, com o qual se alienam numa “mitomania” amorosa que as impede de tomar conhecimento e estabelecer o contacto concreto com os rapazes. Nestes casos, é urgente facilitar um relacionamento com os rapazes, para que não acabem por fugir à realidade do amor.
          Há também o risco de que o adulto que é objeto da admiração romântica interprete mal essa atitude ou se aproveite dela. Neste caso, estamos diante do sério problema da sedução de uma menor.
         Na etapa das turmas mistas, existe o risco de que a amizade grupal se transforme em amizade íntima, flerte ou namoro prematuro, como vimos. Nesta fase, deve-se propor aos filhos que  continuem a sair em turma com os seus amigos e amigas. Não devem ignorar que a amizade íntima com uma pessoa do outro sexo é, na maioria dos casos, uma “passarela” que conduz ao amor, para o qual não estão preparados.
        Se, apesar dos conselhos paternos, algum filho se vincula a uma pessoa do outro sexo, é preciso evitar, na minha opinião, a proibição taxativa de que saiam juntos. A experiência diz que, quando se dramatiza ou se proíbe este tipo de relação, a atração entre os dois adolescentes cresce como um incêndio avivado pelo vento. Pelo contrário, quando não há oposição frontal, o flerte ou o namoro prematuros costumam desaparecer em pouco tempo, como uma fogueira que se apaga por si.
         O problema mais difícil surge, como é evidente, quando essa relação prematura permanece apesar da prudência dos pais. Penso que nestes casos a única coisa que se pode fazer é rezar pelo filho, falar amigavelmente com ele e agir por vias indiretas, como a mudança de colégio. mas se não houver amizade verdadeira entre os pais e os filhos, os conselhos e advertências serão inúteis e até contraproducentes.
             CASTiLHO, gerardo. Amizade e amor entre adolescentes. in: Educar para a amizade. São Paulo: Quadrante, 1999. p. 200-204.
 

Texto 3
                        E foi então que aconteceu

 

Não por acaso ou por acaso que dá no mesmo, ela, a menina que marco César esperava sem saber se existia ou não, por coincidência ou mistério dos nomes, se chamava Clarice também. E tem mais: lia Clarice Lispector desde pequena como se essa escritora tão difícil e estranha para alguns escrevesse os livros para ela, a “menina dos olhos” de marco César. Clarice escrevia para essa outra Clarice como quem escreve com a caligrafia do leitor para ele ler o que já era uma vaga impressão ou uma descoberta clandestina e, então, se ver fazendo da página carregada de letras um espelho todo seu. Clarice, a leitora, lia Clarice, a escritora, e se via, fazia pequenas e grandes descobertas, existia melhor. Coincidência ou mistério? Nem uma coisa nem outra, encontro do acaso, talvez.
          Clarice não era fanática por nada, nem mesmo por Clarice Lispector, o que era uma vantagem para Clarice que lia aquelas histórias extraordinárias sendo reveladas nas coisas mais banais. Vantagem também para Clarice que escrevia em guardanapos de papel, nos talões de cheques, nas margens brancas dos livros e dos jornais, porque escrever acontece para ela nas situações mais inesperadas e não escrever era como morrer por um instante, interrompendo o fluxo mais necessário da respiração. Provavelmente se uma das Clarices conhecesse a outra, as duas seriam amigas para sempre e iam rir e chorar juntas desvendando as coisas imaginadas, partilhando as coisas reais como duas mulheres que se descobrem morando no mesmo livro e se tornam cada vez mais íntimas aproximando a mão que escreve dos olhos de quem lê.
          Nunca se viram frente a frente mas não há a menor dúvida de que se encontraram nos esconderijos da imaginação. De que existe um grande amor e um livro muito especial esperando por você e por todas as outras pessoas do mundo, mesmo que esse encontro não passe de uma promessa – as duas tinham a certeza e eu também. Porém, este livro aqui está sendo escrito para salvar ou condenar um rapaz que cometeu um crime e não tem lugar para premonições.
         Ele, o Marco César, nunca tinha ouvido falar em Clarice Lispector e nem sentia falta de livros – lia mais do que a média dos jovens mas, se não lesse, não seria mais nem menos do que era possível ser. Também não conhecia a outra Clarice embora estudassem na mesma escola – vai saber por quê. mas assim como os desencontros fazem parte da vida, os encontros não deixam de existir... – e foi então que aconteceu...

[...]

Marco César ouviu, estava de costas para Clarice e quis permanecer só com a voz de uma garota que dizia qualquer coisa estranha e familiar. Gostou da voz dela e guardou da outra o som de “é claro, Clarice” que soou dentro dele como um aviso de que tinha estado sempre por perto e agora resolvia aparecer. [...] Ainda mais que ele sentia, mas não sabia direito quem era essa tal de Clarice, e não valia a pena se assustar ou quem sabe se decepcionar tão rápido com alguém que estava acabando de chegar. Amor também é cuidado, isso Marco César sabia.
                                   MAriNHO, Jorge miguel. Lis no peito: um livro que pede perdão. São Paulo: Biruta, 2005. p. 49-51.

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