Texto 1
Insegurança
O adolescente se olha no espelho e se acha diferente. Constata
facilmente que perdeu aquela graça infantil que, em nossa cultura, parece
garantir o amor incondicional dos adultos, sua proteção e solicitude imediatas.
Essa segurança perdida deveria ser compensada por novo olhar dos mesmos
adultos, que reconhecesse a imagem púbere como sendo a figura de outro adulto,
seu par iminente. Ora, esse olhar falha: o adolescente perde (ou, para crescer,
renuncia) a segurança do amor que era garantido à criança, sem ganhar em troca
outra forma de reconhecimento que lhe pareceria, nessa altura, devido.
Ao contrário, a maturação, que para ele é evidente, invasiva e
destrutiva do que fazia sua graça de criança, é recusada, suspensa, negada.
Talvez haja maturação, lhe dizem, mas ainda não é maturidade. Por consequência,
ele não é mais nada, nem criança amada, nem adulto reconhecido.
O que vemos no espelho não é bem nossa imagem. É uma imagem que
sempre deve muito ao olhar dos outros. Ou seja, me vejo bonito ou desejável se
tenho razões para acreditar que os outros gostam de mim ou me desejam. Vejo, em
suma, o que imagino que os outros vejam. Por isso o espelho é ao mesmo tempo
tão tentador e tão perigoso para os adolescentes: porque gostaria muito de
descobrir o que os outros veem nele. Entre a criança que se foi e o adulto que
ainda não chega, o espelho do adolescente é frequentemente vazio. Podemos
entender então como essa época da vida pode ser campeã em fragilidade de
autoestima, depressão e tentativas de suicídio.
Parado na frente do espelho, caçando as espinhas, medindo as novas
formas de seu corpo, desejando e ojerizando seus novos pelos ou seios, o
adolescente vive a falta do olhar apaixonado que ele merecia quando criança e a
falta de palavras que o admitam como par da sociedade dos adultos. A
insegurança se torna assim o traço próprio da adolescência.
Grande parte das dificuldades relacionais dos adolescentes, tanto
com os adultos quanto com seus coetâneos, deriva dessa insegurança. Tanto uma
timidez apagada quanto o estardalhaço maníaco manifestam as mesmas questões, constantemente
à flor da pele, de quem se sente não mais adorado e ainda não reconhecido: será
que sou amável, desejável, bonito, agradável, visível, invisível, oportuno,
inadequado etc.?
CALLigAriS, Contardo. A adolescência. São Paulo: Publifolha, 2000. p. 24-25.
Texto 2
Atitudes que os pais devem
adotar no tema das relações entre moças e rapazes adolescentes
É muito conveniente o relacionamento entre moças e rapazes ao
longo da adolescência. As diversas fases que descrevemos cumprem uma função
necessária no desenvolvimento da amizade e na preparação do futuro amor. Por
isso, os pais devem evitar preconceitos e atitudes de defesa prévia que
dificultem o relacionamento normal entre moças e rapazes adolescentes.
O relacionamento nos grupos mistos fomenta o desenvolvimento da
virilidade e da feminilidade e ajuda a conhecer as pessoas do outro sexo.
Rapazes e moças aprendem a conviver e adquirem qualidades complementares.
Tudo isto não significa que a missão dos pais se reduza a
permitir, sem nenhuma orientação e controle, o relacionamento do seu filho ou
da sua filha com adolescentes do outro sexo. Acabamos de ver os riscos que
existem nesse tipo de convivência. Esses riscos exigem um trabalho preventivo
por parte da família e uma orientação dos filhos em cada situação concreta.
O trabalho preventivo deve começar muitos anos antes da
adolescência, por meio de uma educação sexual progressiva e correta no âmbito
familiar. Esta tarefa corresponde aos pais, por serem colaboradores diretos de
deus na origem da vida e por serem os primeiros e principais educadores. Os
próprios filhos esperam que sejam eles quem lhes explique o mistério da vida. É
extremamente necessário que os pais não cedam à moda atual que pretende eximi-los
dessa responsabilidade com o pretexto de que não estão preparados. Nos casos –
poucos – em que lhes possa faltar essa preparação, a atitude sensata e útil
consiste em que os seus colaboradores (professores e tutores) os ajudem a
adquiri-la, não que pretendam substituí-los.
Uma educação sexual correta não deve limitar-se a informar. É cada
vez mais frequente que se ministre às crianças e adolescentes uma informação
excessiva para a capacidade de compreensão de cada idade, e que por outro lado
falte completamente o enfoque educativo. É preciso situar o biológico no
contexto do amor espiritual, como algo que está a serviço da plenitude da
pessoa e por isso faz parte dos planos de deus. E ao mesmo tempo é preciso
fortalecer o autodomínio, o respeito pelas pessoas do outro sexo e as virtudes
do pudor e da castidade.
A educação sexual é apenas um dos aspectos da educação para o
amor. Os filhos aceitam-na e entendem-na melhor quando se vive na família um
clima de amor, em que o amor generoso e sacrificado dos esposos é um ponto de
referência chave. Se ao longo da infância os filhos receberem essa ajuda para
descobrirem a função do sexo dentro da realidade global da pessoa, o risco de
padecerem de curiosidades doentias e de sentimentos de culpa injustificados
quando chegar a puberdade será muito menor.
A educação progressiva da vontade, por meio da aquisição de todas
as virtudes e especialmente, no nosso caso, das do pudor e da pureza, será um
ponto de apoio muito importante para evitar as manifestações prematuras da
sexualidade durante a adolescência.
Durante a etapa do “amor platônico”, normalmente não surgem
problemas nas relações menina-menino. Os pais, no entanto, deverão estar
atentos à sua evolução, já que nunca se podem descartar dois possíveis riscos:
o prolongamento dessa etapa e a sedução.
Quando o amor idealizado se prolonga para além da adolescência,
transforma-se numa realidade anômala. É um problema que aparece com mais
frequência entre as meninas, uma vez que nelas a imaginação tem um papel mais
importante do que nos rapazes: muitas delas constroem um amante imaginário, um
amante-ídolo, um amante-pretexto, com o qual se alienam numa “mitomania”
amorosa que as impede de tomar conhecimento e estabelecer o contacto concreto
com os rapazes. Nestes casos, é urgente facilitar um relacionamento com os
rapazes, para que não acabem por fugir à realidade do amor.
Há também o risco de que o adulto que é objeto da admiração
romântica interprete mal essa atitude ou se aproveite dela. Neste caso, estamos
diante do sério problema da sedução de uma menor.
Na etapa das turmas mistas, existe o risco de que a amizade grupal
se transforme em amizade íntima, flerte ou namoro prematuro, como vimos. Nesta
fase, deve-se propor aos filhos que continuem a sair em turma com os seus
amigos e amigas. Não devem ignorar que a amizade íntima com uma pessoa do outro
sexo é, na maioria dos casos, uma “passarela” que conduz ao amor, para o qual
não estão preparados.
Se, apesar dos conselhos paternos, algum filho se vincula a uma
pessoa do outro sexo, é preciso evitar, na minha opinião, a proibição taxativa
de que saiam juntos. A experiência diz que, quando se dramatiza ou se proíbe
este tipo de relação, a atração entre os dois adolescentes cresce como um
incêndio avivado pelo vento. Pelo contrário, quando não há oposição frontal, o
flerte ou o namoro prematuros costumam desaparecer em pouco tempo, como uma
fogueira que se apaga por si.
O problema mais difícil surge, como é evidente, quando essa
relação prematura permanece apesar da prudência dos pais. Penso que nestes
casos a única coisa que se pode fazer é rezar pelo filho, falar amigavelmente
com ele e agir por vias indiretas, como a mudança de colégio. mas se não houver
amizade verdadeira entre os pais e os filhos, os conselhos e advertências serão
inúteis e até contraproducentes.
CASTiLHO, gerardo.
Amizade e amor entre adolescentes. in: Educar para a amizade. São Paulo: Quadrante, 1999. p. 200-204.
Texto 3
E foi então que aconteceu
Não por acaso ou por
acaso que dá no mesmo, ela, a menina que marco César esperava sem saber se
existia ou não, por coincidência ou mistério dos nomes, se chamava Clarice também.
E tem mais: lia Clarice Lispector desde pequena como se essa escritora tão
difícil e estranha para alguns escrevesse os livros para ela, a “menina dos
olhos” de marco César. Clarice escrevia para essa outra Clarice como quem
escreve com a caligrafia do leitor para ele ler o que já era uma vaga impressão
ou uma descoberta clandestina e, então, se ver fazendo da página carregada de
letras um espelho todo seu. Clarice, a leitora, lia Clarice, a escritora, e se
via, fazia pequenas e grandes descobertas, existia melhor. Coincidência ou mistério?
Nem uma coisa nem outra, encontro do acaso, talvez.
Clarice não era fanática
por nada, nem mesmo por Clarice Lispector, o que era uma vantagem para Clarice
que lia aquelas histórias extraordinárias sendo reveladas nas coisas mais banais.
Vantagem também para Clarice que escrevia em guardanapos de papel, nos talões
de cheques, nas margens brancas dos livros e dos jornais, porque escrever
acontece para ela nas situações mais inesperadas e não escrever era como morrer
por um instante, interrompendo o fluxo mais necessário da respiração.
Provavelmente se uma das Clarices conhecesse a outra, as duas seriam amigas
para sempre e iam rir e chorar juntas desvendando as coisas imaginadas,
partilhando as coisas reais como duas mulheres que se descobrem morando no
mesmo livro e se tornam cada vez mais íntimas aproximando a mão que escreve dos
olhos de quem lê.
Nunca se viram frente a
frente mas não há a menor dúvida de que se encontraram nos esconderijos da
imaginação. De que existe um grande amor e um livro muito especial esperando
por você e por todas as outras pessoas do mundo, mesmo que esse encontro não passe
de uma promessa – as duas tinham a certeza e eu também. Porém, este livro aqui
está sendo escrito para salvar ou condenar um rapaz que cometeu um crime e não
tem lugar para premonições.
Ele, o Marco César,
nunca tinha ouvido falar em Clarice Lispector e nem sentia falta de livros –
lia mais do que a média dos jovens mas, se não lesse, não seria mais nem menos do que era possível ser. Também não conhecia a
outra Clarice embora estudassem na mesma escola – vai saber por quê. mas assim
como os desencontros fazem parte da vida, os encontros não deixam de existir...
– e foi então que aconteceu...
[...]
Marco César ouviu, estava de costas
para Clarice e quis permanecer só com a voz de uma garota que dizia qualquer
coisa estranha e familiar. Gostou da voz dela e guardou da outra o som de “é
claro, Clarice” que soou dentro dele como um aviso de que tinha estado sempre
por perto e agora resolvia aparecer. [...] Ainda mais que ele sentia, mas não
sabia direito quem era essa tal de Clarice, e não valia a pena se assustar ou
quem sabe se decepcionar tão rápido com alguém que estava acabando de chegar.
Amor também é cuidado, isso Marco César sabia.
MAriNHO, Jorge miguel. Lis no peito:
um livro que pede perdão. São Paulo: Biruta, 2005. p. 49-51.
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