domingo, 15 de setembro de 2013

Figuras de Linguagem

As figuras de linguagem são recursos que tornam mais expressivas as mensagens. Subdividem-se em figuras de som, figuras de construção, figuras de pensamento e figuras de palavras.

Figuras de som
a) aliteração: consiste na repetição ordenada de mesmos sons consonantais.
“Esperando, parada, pregada na pedra do porto.”

b) assonância: consiste na repetição ordenada de sons vocálicos idênticos.
“Sou um mulato nato no sentido lato
mulato democrático do litoral.”

c) paronomásia: consiste na aproximação de palavras de sons parecidos, mas de significados distintos.
“Eu que passo, penso e peço.

Figuras de construção
a) elipse: consiste na omissão de um termo facilmente identificável pelo contexto.
“Na sala, apenas quatro ou cinco convidados.” (omissão de havia)

b) zeugma: consiste na elipse de um termo que já apareceu antes.
Ele prefere cinema; eu, teatro. (omissão de prefiro)

c) polissíndeto: consiste na repetição de conectivos ligando termos da oração ou elementos do período.
“ E sob as ondas ritmadas
e sob as nuvens e os ventos
e sob as pontes e sob o sarcasmo
e sob a gosma e sob o vômito (...)”

d) inversão: consiste na mudança da ordem natural dos termos na frase.
“De tudo ficou um pouco.
Do meu medo. Do teu asco.”

e) silepse: consiste na concordância não com o que vem expresso, mas com o que se subentende, com o que está implícito. A silepse pode ser:
• De gênero
Vossa Excelência está preocupado.

• De número
Os Lusíadas glorificou nossa literatura.

• De pessoa
“O que me parece inexplicável é que os brasileiros persistamos em comer essa coisinha verde e mole que se derrete na boca.”

f) anacoluto: consiste em deixar um termo solto na frase. Normalmente, isso ocorre porque se inicia uma determinada construção sintática e depois se opta por outra.
A vida, não sei realmente se ela vale alguma coisa.

g) pleonasmo: consiste numa redundância cuja finalidade é reforçar a mensagem.
“E rir meu riso e derramar meu pranto.”

h) anáfora: consiste na repetição de uma mesma palavra no início de versos ou frases.
“ Amor é um fogo que arde sem se ver;
É ferida que dói e não se sente;
É um contentamento descontente;
É dor que desatina sem doer”

Figuras de pensamento
a) antítese: consiste na aproximação de termos contrários, de palavras que se opõem pelo sentido.
“Os jardins têm vida e morte.”

b) ironia: é a figura que apresenta um termo em sentido oposto ao usual, obtendo-se, com isso, efeito crítico ou humorístico.
“A excelente Dona Inácia era mestra na arte de judiar de crianças.”

c) eufemismo: consiste em substituir uma expressão por outra menos brusca; em síntese, procura-se suavizar alguma afirmação desagradável.
Ele enriqueceu por meios ilícitos. (em vez de ele roubou)

d) hipérbole: trata-se de exagerar uma ideia com finalidade enfática.
Estou morrendo de sede. (em vez de estou com muita sede)

e) prosopopeia ou personificação: consiste em atribuir a seres inanimados predicativos que são próprios de seres animados.
O jardim olhava as crianças sem dizer nada.

f) gradação ou clímax: é a apresentação de ideias em progressão ascendente (clímax) ou descendente (anticlímax)
“Um coração chagado de desejos
Latejando, batendo, restrugindo.”

g) apóstrofe: consiste na interpelação enfática a alguém (ou alguma coisa personificada).
“Senhor Deus dos desgraçados!
Dizei-me vós, Senhor Deus!”

Figuras de palavras
a) metáfora: consiste em empregar um termo com significado diferente do habitual, com base numa relação de similaridade entre o sentido próprio e o sentido figurado. A metáfora implica, pois, uma comparação em que o conectivo comparativo fica subentendido.
“Meu pensamento é um rio subterrâneo.”

b) metonímia: como a metáfora, consiste numa transposição de significado, ou seja, uma palavra que usualmente significa uma coisa passa a ser usada com outro significado. Todavia, a transposição de significados não é mais feita com base em traços de semelhança, como na metáfora. A metonímia explora sempre alguma relação lógica entre os termos. Observe:
Não tinha teto em que se abrigasse. (teto em lugar de casa)

c) catacrese: ocorre quando, por falta de um termo específico para designar um conceito, torna-se outro por empréstimo. Entretanto, devido ao uso contínuo, não mais se percebe que ele está sendo empregado em sentido figurado.
O pé da mesa estava quebrado.

d) antonomásia ou perífrase: consiste em substituir um nome por uma expressão que o identifique com facilidade:
...os quatro rapazes de Liverpool (em vez de os Beatles)

e) sinestesia: trata-se de mesclar, numa expressão, sensações percebidas por diferentes órgãos do sentido.
A luz crua da madrugada invadia meu quarto.

Vícios de linguagem
A gramática é um conjunto de regras que estabelece um determinado uso da língua, denominado norma culta ou língua padrão. Acontece que as normas estabelecidas pela gramática normativa nem sempre são obedecidas, em se tratando da linguagem escrita.  O ato de desviar-se da norma padrão no intuito de alcançar uma maior expressividade, refere-se às figuras de linguagem. Quando o desvio se dá pelo não conhecimento da norma culta, temos os chamados vícios de linguagem.

a) barbarismo: consiste em grafar ou pronunciar uma palavra em desacordo com a norma culta.
pesquiza (em vez de pesquisa)
prototipo (em vez de protótipo)

b) solecismo: consiste em desviar-se da norma culta na construção sintática.
Fazem dois meses que ele não aparece. (em vez de faz ; desvio na sintaxe de concordância)

c) ambiguidade ou anfibologia: trata-se de construir a frase de um modo tal que ela apresente mais de um sentido.
O guarda deteve o suspeito em sua casa. (na casa de quem: do guarda ou do suspeito?)

d) cacófato: consiste no mau som produzido pela junção de palavras.
Paguei cinco mil reais por cada.

e) pleonasmo vicioso:  consiste na repetição desnecessária de uma ideia. 
O pai ordenou que a menina entrasse para dentro imediatamente.
Observação: Quando o uso do pleonasmo se dá de modo enfático, este não é considerado vicioso.

f) eco: trata-se da repetição de palavras terminadas pelo mesmo som.
O menino repetente mente alegremente.

terça-feira, 11 de junho de 2013

Revisando

Classificação dos verbos quanto à predicação:
1- Intransitivos : são verbos significativos, capazes de constituir o predicado .Não
necessitam de complemento , já que possuem sentido completo.
O balão subiu. O cão desapareceu.
Observação: Os verbos intransitivos muitas vezes vêm acompanhados de um termo acessório (um acessório e não um complemento)., que exprime uma determinada circunstância (tempo, modo, lugar etc.).
O balão subiu rapidamente.
O cão desapareceu na planície.

2-Transitivos: são verbos incapazes, sozinhos de constituir o predicado, já que, têm o sentido incompleto.Subdividem –se em:
a) Transitivos diretos- quando exigem complemento sem preposição obrigatória, denominado objeto direto.
Lúcia comprou livros.
Lúcia ama Carlos.

b) Transitivos indiretos- quando exigem complemento com preposição obrigatória, denominado objeto indireto.
Carlos necessita de livros.
Luciana confia em Carlos

c) Transitivos diretos e indiretos- quando possuem dois complementos : um com preposição e outro sem preposição.
Luciana ofereceu livros a Carlos.
Carlos emprestou livros a Luciana.
3- De ligação – são verbos sem valor significativo, servem como elo de ligação entre o sujeito e um atributo do sujeito denominado predicativo do sujeito.
Luciana é estudiosa.
Carlos está tenso.

Os principais verbos de ligação são: ser, estar, parecer, continuar, ficar, andar (no sentido de estar), continuar.

TIPOS DE PREDICADO
Há três tipos de predicado: predicado nominal, predicado verbal e predicado verbo-nominal.

PREDICADO NOMINAL
Expressa o estado do sujeitoO verbo é de ligação.
Exemplo: O dia continua quente.
                             PREDICADO
Todos permaneciam apreensivos.
                   PREDICADO

Observação: o núcleo do predicado nominal é chamado predicativo do sujeito, pois atribui qualidade ou condição.

PREDICADO VERBAL
Expressa a ação praticada ou recebida pelo sujeito.
Exemplo: Os professores receberam o prêmio.
                                                PREDICADO

Observação: o núcleo do predicado verbal é o verbo, pois sua mensagem principal é a ação praticada ou recebida pelo sujeito.
Exemplo: Os trabalhadores exigem melhores condições de trabalho.
                                                        PREDICADO
PREDICADO VERBO-NOMINAL
Informa a ação e o estado do sujeito.
Exemplo: Nós chegamos cansados.
                             AÇÃO ESTADO
Cândida retornou feliz da viagem.
                 AÇÃO ESTADO

Observação: o predicado verbo-nominal é constituído de dois núcleos – um verbo e um nome – porque fornece duas informações: ação e estado.
Exemplo: O comprador saiu da loja estressado.

A criança dormia tranquila. 

O período composto pode ser por coordenação ou subordinação. O período composto por coordenação é composto por orações independentes enquanto o período composto por subordinação é composto por orações dependentes.

Classificação das orações subordinadas substantivas
PERÍODO COMPOSTO POR SUBORDINAÇÃO
As orações podem ser constituídas da seguinte forma:
Períodos simples » são aqueles formados por uma só oração.

Exemplo:
O mar estava calmo. (Aparece apenas um verbo: estava. Logo, período simples).
Períodos compostos » são aqueles formados por duas ou mais orações.
Exemplo:
A sessão começou calma e terminou agitada. (Aparecem dois verbos: começou e terminou. Logo, período composto).
O período composto pode ser classificado em:

Coordenação e Subordinação.



O Período Composto por Subordinação é formado por uma oração principal e uma oração subordinada.


ORAÇÕES SUBORDINADAS SUBSTANTIVAS
Como o próprio nome diz, são orações que exercem as funções sintáticas dos substantivos.


ORAÇÃO SUBORDINADA SUBSTANTIVA SUBJETIVA

Exerce a função de sujeito da oração principal.

Exemplos:
É necessário que você estude o projeto.
Foi decidido que o veículo fará uma revisão completa.
Sabendo que a oração subordinada substantiva subjetiva funciona como sujeito, não poderá haver sujeito dentro da oração principal.
Existem três estruturas de oração principal que se usam com subordinada substantiva subjetiva:
verbo de ligação + predicativo + oração subordinada substantiva subjetiva.
Ex. É necessário que façamos nossos deveres.
verbo unipessoal + oração subordinada substantiva subjetiva.
Verbo unipessoal só é usado na 3ª pessoa do singular; os mais comuns são convir, constar, parecer, importar, interessar, suceder, acontecer.
Ex. Convém que façamos nossos deveres.
verbo na voz passiva + oração subordinada substantiva subjetiva.
Ex. Foi afirmado que você subornou o guarda.


ORAÇÃO SUBORDINADA SUBSTANTIVA OBJETIVA DIRETA
Funciona como objeto direto do verbo da oração principal.
(sujeito) + VTD + oração subordinada substantiva objetiva direta.
Ex. Todos desejamos que seu futuro seja brilhante.
Os estudos mostram que muitos jovens são viciados em álcool.
O gerente explicou que metas foram alcançadas.



ORAÇÃO SUBORDINADA SUBSTANTIVA OBJETIVA INDIRETA

Funciona como objeto indireto do verbo da oração principal. Assim como o objeto indireto, a oração subordinada objetiva indireta é iniciada por uma preposição.

(sujeito) + VTI + prep. + oração subordinada substantiva objetiva indireta.
Ex. Lembro-me de que tu me amavas.
A empresa necessitava de que a mercadoria fosse entregue.
Os trabalhadores aspiram a que respeitem seus direitos trabalhistas.


ORAÇÃO SUBORDINADA SUBSTANTIVA COMPLETIVA NOMINAL

Funciona como complemento nominal de um substantivo, adjetivo ou advérbio da oração principal.

(sujeito) + verbo + termo intransitivo + prep. + oração subordinada substantiva completiva nominal.
EX: Roberto estava convicto de que Elis voltaria.
A estudante estava esperançosa de que a prova sobre o sistema biológico fosse fácil.
Tenho necessidade de que me elogiem.



ORAÇÃO SUBORDINADA SUBSTANTIVA PREDICATIVAExerce a função de predicativo do sujeito da oração principal.
(sujeito) + VL + oração subordinada substantiva predicativa.Exemplos:
A verdade é que nunca nos satisfazemos com nossas posses.
Nossa esperança é que as nações busquem a paz.
Nossa preocupação era que Roberto permanecesse doente.

ORAÇÃO SUBORDINADA SUBSTANTIVA APOSITIVAFunciona como aposto da oração principal, ou seja, funciona como uma explicação de uma palavra da oração principal.
Oração principal + : + oração subordinada substantiva apositiva.Exemplos:
Todos querem o mesmo destino: que atinjamos a felicidade.
A esperança dos países pobre é uma: que a distribuição de renda seja mais justa.
Só lhe peço isso: que me obedeça.
 

sábado, 18 de maio de 2013

Os três textos da apostila

Texto 1
Insegurança
O adolescente se olha no espelho e se acha diferente. Constata facilmente que perdeu aquela graça infantil que, em nossa cultura, parece garantir o amor incondicional dos adultos, sua proteção e solicitude imediatas. Essa segurança perdida deveria ser compensada por novo olhar dos mesmos adultos, que reconhecesse a imagem púbere como sendo a figura de outro adulto, seu par iminente. Ora, esse olhar falha: o adolescente perde (ou, para crescer, renuncia) a segurança do amor que era garantido à criança, sem ganhar em troca outra forma de reconhecimento que lhe pareceria, nessa altura, devido.
          Ao contrário, a maturação, que para ele é evidente, invasiva e destrutiva do que fazia sua graça de criança, é recusada, suspensa, negada. Talvez haja maturação, lhe dizem, mas ainda não é maturidade. Por consequência, ele não é mais nada, nem criança amada, nem adulto reconhecido.
         O que vemos no espelho não é bem nossa imagem. É uma imagem que sempre deve muito ao olhar dos outros. Ou seja, me vejo bonito ou desejável se tenho razões para acreditar que os outros gostam de mim ou me desejam. Vejo, em suma, o que imagino que os outros vejam. Por isso o espelho é ao mesmo tempo tão tentador e tão perigoso para os adolescentes: porque gostaria muito de descobrir o que os outros veem nele. Entre a criança que se foi e o adulto que ainda não chega, o espelho do adolescente é frequentemente vazio. Podemos entender então como essa época da vida pode ser campeã em fragilidade de autoestima, depressão e tentativas de suicídio.
         Parado na frente do espelho, caçando as espinhas, medindo as novas formas de seu corpo, desejando e ojerizando seus novos pelos ou seios, o adolescente vive a falta do olhar apaixonado que ele merecia quando criança e a falta de palavras que o admitam como par da sociedade dos adultos. A insegurança se torna assim o traço próprio da adolescência.
         Grande parte das dificuldades relacionais dos adolescentes, tanto com os adultos quanto com seus coetâneos, deriva dessa insegurança. Tanto uma timidez apagada quanto o estardalhaço maníaco manifestam as mesmas questões, constantemente à flor da pele, de quem se sente não mais adorado e ainda não reconhecido: será que sou amável, desejável, bonito, agradável, visível, invisível, oportuno, inadequado etc.?
                                                                CALLigAriS, Contardo. A adolescência. São Paulo: Publifolha, 2000. p. 24-25.
Texto 2
Atitudes que os pais devem adotar no tema das relações entre moças e rapazes adolescentes
 
          É muito conveniente o relacionamento entre moças e rapazes ao longo da adolescência. As diversas fases que descrevemos cumprem uma função necessária no desenvolvimento da amizade e na preparação do futuro amor. Por isso, os pais devem evitar preconceitos e atitudes de defesa prévia que dificultem o relacionamento normal entre moças e rapazes adolescentes.
         O relacionamento nos grupos mistos fomenta o desenvolvimento da virilidade e da feminilidade e ajuda a conhecer as pessoas do outro sexo. Rapazes e moças aprendem a conviver e adquirem qualidades complementares.
         Tudo isto não significa que a missão dos pais se reduza a permitir, sem nenhuma orientação e controle, o relacionamento do seu filho ou da sua filha com adolescentes do outro sexo. Acabamos de ver os riscos que existem nesse tipo de convivência. Esses riscos exigem um trabalho preventivo por parte da família e uma orientação dos filhos em cada situação concreta.
         O trabalho preventivo deve começar muitos anos antes da adolescência, por meio de uma educação sexual progressiva e correta no âmbito familiar. Esta tarefa corresponde aos pais, por serem colaboradores diretos de deus na origem da vida e por serem os primeiros e principais educadores. Os próprios filhos esperam que sejam eles quem lhes explique o mistério da vida. É extremamente necessário que os pais não cedam à moda atual que pretende eximi-los dessa responsabilidade com o pretexto de que não estão preparados. Nos casos – poucos – em que lhes possa faltar essa preparação, a atitude sensata e útil consiste em que os seus colaboradores (professores e tutores) os ajudem a adquiri-la, não que pretendam substituí-los.
         Uma educação sexual correta não deve limitar-se a informar. É cada vez mais frequente que se ministre às crianças e adolescentes uma informação excessiva para a capacidade de compreensão de cada idade, e que por outro lado falte completamente o enfoque educativo. É preciso situar o biológico no contexto do amor espiritual, como algo que está a serviço da plenitude da pessoa e por isso faz parte dos planos de deus. E ao mesmo tempo é preciso fortalecer o autodomínio, o respeito pelas pessoas do outro sexo e as virtudes do pudor e da castidade.
         A educação sexual é apenas um dos aspectos da educação para o amor. Os filhos aceitam-na e entendem-na melhor quando se vive na família um clima de amor, em que o amor generoso e sacrificado dos esposos é um ponto de referência chave. Se ao longo da infância os filhos receberem essa ajuda para descobrirem a função do sexo dentro da realidade global da pessoa, o risco de padecerem de curiosidades doentias e de sentimentos de culpa injustificados quando chegar a puberdade será muito menor.
         A educação progressiva da vontade, por meio da aquisição de todas as virtudes e especialmente, no nosso caso, das do pudor e da pureza, será um ponto de apoio muito importante para evitar as manifestações prematuras da sexualidade durante a adolescência.
         Durante a etapa do “amor platônico”, normalmente não surgem problemas nas relações menina-menino. Os pais, no entanto, deverão estar atentos à sua evolução, já que nunca se podem descartar dois possíveis riscos: o prolongamento dessa etapa e a sedução.
         Quando o amor idealizado se prolonga para além da adolescência, transforma-se numa realidade anômala. É um problema que aparece com mais frequência entre as meninas, uma vez que nelas a imaginação tem um papel mais importante do que nos rapazes: muitas delas constroem um amante imaginário, um amante-ídolo, um amante-pretexto, com o qual se alienam numa “mitomania” amorosa que as impede de tomar conhecimento e estabelecer o contacto concreto com os rapazes. Nestes casos, é urgente facilitar um relacionamento com os rapazes, para que não acabem por fugir à realidade do amor.
          Há também o risco de que o adulto que é objeto da admiração romântica interprete mal essa atitude ou se aproveite dela. Neste caso, estamos diante do sério problema da sedução de uma menor.
         Na etapa das turmas mistas, existe o risco de que a amizade grupal se transforme em amizade íntima, flerte ou namoro prematuro, como vimos. Nesta fase, deve-se propor aos filhos que  continuem a sair em turma com os seus amigos e amigas. Não devem ignorar que a amizade íntima com uma pessoa do outro sexo é, na maioria dos casos, uma “passarela” que conduz ao amor, para o qual não estão preparados.
        Se, apesar dos conselhos paternos, algum filho se vincula a uma pessoa do outro sexo, é preciso evitar, na minha opinião, a proibição taxativa de que saiam juntos. A experiência diz que, quando se dramatiza ou se proíbe este tipo de relação, a atração entre os dois adolescentes cresce como um incêndio avivado pelo vento. Pelo contrário, quando não há oposição frontal, o flerte ou o namoro prematuros costumam desaparecer em pouco tempo, como uma fogueira que se apaga por si.
         O problema mais difícil surge, como é evidente, quando essa relação prematura permanece apesar da prudência dos pais. Penso que nestes casos a única coisa que se pode fazer é rezar pelo filho, falar amigavelmente com ele e agir por vias indiretas, como a mudança de colégio. mas se não houver amizade verdadeira entre os pais e os filhos, os conselhos e advertências serão inúteis e até contraproducentes.
             CASTiLHO, gerardo. Amizade e amor entre adolescentes. in: Educar para a amizade. São Paulo: Quadrante, 1999. p. 200-204.
 

Texto 3
                        E foi então que aconteceu

 

Não por acaso ou por acaso que dá no mesmo, ela, a menina que marco César esperava sem saber se existia ou não, por coincidência ou mistério dos nomes, se chamava Clarice também. E tem mais: lia Clarice Lispector desde pequena como se essa escritora tão difícil e estranha para alguns escrevesse os livros para ela, a “menina dos olhos” de marco César. Clarice escrevia para essa outra Clarice como quem escreve com a caligrafia do leitor para ele ler o que já era uma vaga impressão ou uma descoberta clandestina e, então, se ver fazendo da página carregada de letras um espelho todo seu. Clarice, a leitora, lia Clarice, a escritora, e se via, fazia pequenas e grandes descobertas, existia melhor. Coincidência ou mistério? Nem uma coisa nem outra, encontro do acaso, talvez.
          Clarice não era fanática por nada, nem mesmo por Clarice Lispector, o que era uma vantagem para Clarice que lia aquelas histórias extraordinárias sendo reveladas nas coisas mais banais. Vantagem também para Clarice que escrevia em guardanapos de papel, nos talões de cheques, nas margens brancas dos livros e dos jornais, porque escrever acontece para ela nas situações mais inesperadas e não escrever era como morrer por um instante, interrompendo o fluxo mais necessário da respiração. Provavelmente se uma das Clarices conhecesse a outra, as duas seriam amigas para sempre e iam rir e chorar juntas desvendando as coisas imaginadas, partilhando as coisas reais como duas mulheres que se descobrem morando no mesmo livro e se tornam cada vez mais íntimas aproximando a mão que escreve dos olhos de quem lê.
          Nunca se viram frente a frente mas não há a menor dúvida de que se encontraram nos esconderijos da imaginação. De que existe um grande amor e um livro muito especial esperando por você e por todas as outras pessoas do mundo, mesmo que esse encontro não passe de uma promessa – as duas tinham a certeza e eu também. Porém, este livro aqui está sendo escrito para salvar ou condenar um rapaz que cometeu um crime e não tem lugar para premonições.
         Ele, o Marco César, nunca tinha ouvido falar em Clarice Lispector e nem sentia falta de livros – lia mais do que a média dos jovens mas, se não lesse, não seria mais nem menos do que era possível ser. Também não conhecia a outra Clarice embora estudassem na mesma escola – vai saber por quê. mas assim como os desencontros fazem parte da vida, os encontros não deixam de existir... – e foi então que aconteceu...

[...]

Marco César ouviu, estava de costas para Clarice e quis permanecer só com a voz de uma garota que dizia qualquer coisa estranha e familiar. Gostou da voz dela e guardou da outra o som de “é claro, Clarice” que soou dentro dele como um aviso de que tinha estado sempre por perto e agora resolvia aparecer. [...] Ainda mais que ele sentia, mas não sabia direito quem era essa tal de Clarice, e não valia a pena se assustar ou quem sabe se decepcionar tão rápido com alguém que estava acabando de chegar. Amor também é cuidado, isso Marco César sabia.
                                   MAriNHO, Jorge miguel. Lis no peito: um livro que pede perdão. São Paulo: Biruta, 2005. p. 49-51.

domingo, 5 de maio de 2013

Leitura do Bimestre - Conto & Crônica

O GATO PRETO de EDGAR ALLAN POE

Não espero nem solicito o crédito do leitor para a tão extraordinária e no entanto tão familiar história que vou contar. Louco seria esperá-lo, num caso cuja evidência até os meus próprios sentidos se recusam a aceitar. No entanto não estou louco, e com toda a certeza que não estou a sonhar. Mas porque posso morrer amanhã, quero aliviar hoje o meu espírito. O meu fim imediato é mostrar ao mundo, simples, sucintamente e sem comentários, uma série de meros acontecimentos domésticos. Nas suas consequências, estes acontecimentos aterrorizaram-me, torturaram-me, destruíram-me. No entanto, não procurarei esclarecê-los. O sentimento que em mim despertaram foi quase exclusivamente o de terror; a muitos outros parecerão menos terríveis do que extravagantes. Mais tarde, será possível que se encontre uma inteligência qualquer que reduza a minha fantasia a uma banalidade. Qualquer inteligência mais serena, mais lógica e muito menos excitável do que a minha encontrará tão somente nas circunstâncias que relato com terror uma sequência bastante normal de causas e efeitos.

Já na minha infância era notado pela docilidade e humanidade do meu caráter. Tão nobre era a ternura do meu coração, que eu acabava por tornar-me num joguete dos meus companheiros. Tinha uma especial afeição pelos animais e os meus pais permitiam-me possuir uma grande variedade deles. Com eles passava a maior parte do meu tempo e nunca me sentia tão feliz como quando lhes dava de comer e os acariciava. Esta faceta do meu caráter acentuou-se com os anos, e, quando homem, aí achava uma das minhas principais fontes de prazer. Quanto àqueles que já tiveram uma afeição por um cão fiel e sagaz, escusado será preocupar-me com explicar-lhes a natureza ou a intensidade da compensação que daí se pode tirar. No amor desinteressado de um animal, no sacrifício de si mesmo, alguma coisa há que vai direito ao coração de quem tão frequentemente pôde comprovar a amizade mesquinha e a frágil fidelidade do homem.

Casei jovem e tive a felicidade de achar na minha mulher uma disposição de espírito que não era contrária à minha. Vendo o meu gosto por animais domésticos, nunca perdia a oportunidade de me proporcionar alguns exemplares das espécies mais agradáveis. Tínhamos pássaros, peixes dourados, um lindo cão, coelhos, um macaquinho, e um gato.

Este último era um animal notavelmente forte e belo, completamente preto e excepcionalmente esperto. Quando falávamos da sua inteligência, a minha mulher, que não era de todo impermeável à superstição, fazia frequentes alusões à crença popular que considera todos os gatos pretos como feiticeiras disfarçadas. Não quero dizer que falasse deste assunto sempre a sério, e se me refiro agora a isto não é por qualquer motivo especial, mas apenas porque me veio à ideia.

Plutão, assim se chamava o gato, era o meu amigo predileto e companheiro de brincadeiras. Só eu lhe dava de comer e seguia-me por toda a parte, dentro de casa. Era até com dificuldade que conseguia impedir que me seguisse na rua.

A nossa amizade durou assim vários anos, durante os quais o meu temperamento e o meu caráter sofreram uma alteração radical - envergonho-me de o confessar - para pior, devido ao demônio da intemperança. De dia para dia me tornava mais taciturno, mais irritável, mais indiferente aos sentimentos dos outros. Permitia-me usar de uma linguagem brutal com minha mulher. Com o tempo, cheguei até a usar de violência. Evidentemente que os meus pobres animaizinhos sentiram a transformação do meu caráter. Não só os desprezava como os tratava mal. Por Plutão, porém, ainda nutria uma certa consideração que me não deixava maltratá-lo. Quanto aos outros, não tinha escrúpulos em maltratar os coelhos, o macaco e até o cão, quando por acaso ou por afeição se atravessavam no meu caminho.

Mas a doença tomava conta de mim- pois que doença se assemelha à do álcool? - e, por fim, até o próprio Plutão, que estava a ficar velho e, por consequência, um tanto impertinente, até o próprio Plutão começou a sentir os efeitos do meu caráter perverso.

Certa noite, ao regressar a casa, completamente embriagado, de volta de um dos tugúrios da cidade, pareceu-me que o gato evitava a minha presença. Apanhei-o, e ele, horrorizado com a violência do meu gesto, feriu-me ligeiramente na mão com os dentes. Uma fúria dos demônios imediatamente se apossou de mim. Não me reconhecia. Dir-se-ia que a minha alma original se evolara do meu corpo num instante e uma ruindade mais do que demoníaca, saturada de genebra, fazia estremecer cada uma das fibras do meu corpo. Tirei do bolso do colete um canivete, abri-o, agarrei o pobre animal pelo pescoço e, deliberadamente, arranquei-lhe um olho da órbita! Queima-me a vergonha e todo eu estremeço ao escrever esta abominável atrocidade.

Quando, com a manhã, me voltou a razão, quando se dissiparam os vapores da minha noite de estúrdia, experimentei um sentimento misto de horror e de remorso pelo crime que tinha cometido. Mas era um sentimento frágil e equívoco e o meu espírito continuava insensível. Voltei a mergulhar nos excessos, e depressa afoguei no álcool toda a recordação do ato.

Entretanto, o gato curou-se lentamente. A órbita agora vazia apresentava, na verdade, um aspecto horroroso, mas o animal não aparentava qualquer sofrimento. Vagueava pela casa como de costume, mas, como seria de esperar, fugia aterrorizado quando eu me aproximava. Porém, restava-me ainda o suficiente do meu velho coração para me sentir agravado por esta evidente antipatia da parte de um animal que outrora tanto gostara de mim. Em breve este sentimento deu lugar à irritação. E para minha queda final e irrevogável, o espírito da PERVERSIDADE fez de seguida a sua aparição. Deste espírito não cura a filosofia. No entanto, não estou mais certo da existência da minha alma do que do fato que a perversidade é um dos impulsos primitivos do coração humano; uma dessas indivisas faculdades primárias, ou sentimentos, que deu uma direção ao caráter do homem. Quem se não surpreendeu já uma centena de vezes cometendo uma ação néscia ou vil, pela única razão de saber que a não devia cometer? Não temos nós uma inclinação perpétua, pese ao melhor do nosso juízo, para violar aquilo que constitui a Lei, só porque sabemos que o é? E digo que este espírito de perversidade surgiu para minha perda final. Foi este anseio insondável da alma por se atormentar, por oferecer violência à sua própria natureza, por fazer o mal só pelo mal, que me forçou a continuar e, finalmente, a consumar a maldade que infligi ao inofensivo animal. Certa manhã, a sangue-frio, passei-lhe um nó corredio ao pescoço e enforquei-o no ramo de uma árvore; enforquei-o com as lágrimas a saltarem-me dos olhos e com o mais amargo remorso no coração; enforquei-o porque sabia que me tinha tido afeição e porque sabia que não me tinha dado razão para a torpeza; enforquei-o porque sabia que ao fazê-lo estava cometendo um pecado, um pecado mortal que comprometia a minha alma imortal a ponto de a colocar, se tal fosse possível, mesmo para além do alcance da infinita misericórdia do Deus Mais Piedoso e Mais Severo.

Na noite do próprio dia em que este ato cruel foi perpetrado, fui acordado do sono aos gritos de «Fogo!». As cortinas da minha cama estavam em chamas; toda a casa era um braseiro. Foi com grande dificuldade que minha mulher, uma criada e eu conseguimos escapar do incêndio. A destruição foi completa. Todos os meus bens materiais foram destruídos, e daí em diante mergulhei no desespero.

Sou superior à fraqueza de procurar estabelecer uma sequência de causa a efeito entre a atrocidade e o desastre. Limito-me, porém, a narrar uma cadeia de acontecimentos e não quero deixar nem um elo sequer incompleto. Nos dias que se sucederam ao incêndio, visitei as ruínas. As paredes, à exceção de uma, tinham abatido por completo. Esta exceção era constituída por um tabique interior, não muito espesso, que estava sensivelmente a meio da casa, e de encontro ao qual antes ficava a cabeceira da minha cama. O reboco resistira em grande parte à ação do fogo, fato que atribuo a ter sido pouco antes restaurado.

Próximo desta parede juntara-se uma densa multidão e muitas pessoas pareciam estar a examinar certa zona em particular, com minúcia e grande atenção. A minha curiosidade foi despertada pelas palavras «estranho», «singular» e outras expressões semelhantes. Aproximei-me e vi, como se fora gravado em baixo revelo, sobre a superfície branca, a figura de um gato gigantesco. A imagem estava desenhada com uma precisão realmente espantosa. Em volta do pescoço do animal estava uma corda.

Mal vi a aparição, pois nem podia pensar que doutra coisa se tratasse, o meu assombro e o meu terror foram imensos. Por fim, a reflexão veio em meu auxílio. Lembrei-me que o gato fora enforcado num jardim junto à casa. Após o alarme de incêndio, O dito jardim fora imediatamente invadido pela multidão e por alguém que deve ter cortado a corda do gato e o deve ter lançado para dentro do meu quarto, por uma janela aberta. Isto deve ter sido feito, provavelmente, com a intenção de me acordar. A queda das outras paredes tinha comprimido a vítima da minha crueldade na substância do reboco recentemente aplicado e cuja cal, combinada com as chamas e o amoníaco do cadáver, tinha produzido a imagem tal como eu a via.

Tendo assim satisfeito prontamente a minha razão - que não totalmente a minha consciência - sobre o fato extraordinário atrás descrito, não deixou este, no entanto, de causar profunda impressão na minha imaginação. Durante meses não consegui libertar-me do fantasma do gato, e, durante este período, voltou-me ao espírito uma espécie de sentimento que parecia remorso, mas que o não era. Cheguei ao ponto de lamentar a perda do animal e a procurar à minha volta, nos sórdidos tugúrios que agora frequentava com assiduidade, um outro animal da mesma espécie e bastante parecido que preenchesse o seu lugar.

Uma noite, estava eu sentado meio aturdido num antro mais do que infamante, a minha atenção foi despertada por um objeto preto que repousava no topo de um dos enormes toneis de gin ou de rum que constituíam o principal mobiliário do compartimento. Havia minutos que olhava para a parte superior do tonel, e o que agora me causava surpresa era o fato de não me ter apercebido mais cedo do objeto que estava em cima. Aproximei-me e toquei-lhe com a mão. Era um gato preto, um gato enorme, tão grande como Plutão e semelhante a ele em todos os aspectos menos num. Plutão não tinha sequer um único pêlo branco no corpo, enquanto este gato tinha uma mancha branca, grande mas indefinida, que lhe cobria toda a região do peito.

Quando lhe toquei, imediatamente se levantou e ronronou com força, roçou-se pela minha mão, e parecia contente por o ter notado. Era este, pois, o animal que eu procurava. Imediatamente propus a compra ao dono, mas este nada tinha a reclamar pelo animal, nada sabia a seu respeito, nunca o tinha visto até então.

Continuei a acariciá-lo, e quando me preparava para ir para casa, o animal mostrou-se disposto a acompanhar-me. Permiti que o fizesse, inclinando-me de vez em quando para o acariciar enquanto caminhava. Quando chegou a casa, adaptou-se logo e logo se tornou muito amigo da minha mulher

Pela minha parte, não tardou em surgir em mim uma antipatia por ele. Era exatamente o reverso do que eu esperava, mas, não sei como nem porquê, a sua evidente ternura por mim desgostava-me e aborrecia-me. Lentamente, a pouco e pouco, esses sentimentos de desgosto e de aborrecimento transformaram-se na amargura do ódio. Evitava o animal; um certo sentimento de vergonha e a lembrança do meu anterior ato de crueldade impediram-me de o maltratar fisicamente. Abstive-me, durante semanas, de o maltratar ou exercer sobre ele qualquer violência, mas, gradualmente, muito gradualmente, cheguei a nutrir por ele um horror indizível e a fugir silenciosamente da sua odiosa presença como do bafo da peste.

O que aumentou, sem dúvida, o meu ódio pelo animal foi descobrir, na manhã do dia seguinte a tê-lo trazido para casa, que, tal como Plutão, tinha também sido privado de um dos seus olhos. Esta circunstância, contudo, mais afeição despertou na minha mulher, que, como já disse, possuía em alto grau aquele sentimento de humanidade que fora em tempos característica minha e a fonte de muitos dos meus prazeres mais simples e mais puros.

Com a minha aversão pelo gato parecia crescer nele a sua preferência por mim. Seguia os meus passos com uma pertinácia que seria difícil fazer compreender ao leitor. Sempre que me sentava, enroscava-se debaixo da minha cadeira ou saltava-me para os joelhos, cobrindo-me com as suas repugnantes carícias. Se me levantava para caminhar, metia-se-me entre os pés e quase me fazia cair ou, fincando as suas garras compridas e aguçadas no meu roupão, trepava-me até ao peito. Em tais momentos, embora a minha vontade fosse matá-lo com uma pancada, era impedido de o fazer, em parte pela lembrança do meu crime anterior mas, principalmente, devo desde já confessá-lo, por um verdadeiro medo do animal.

Este medo não era exatamente o receio de um mal físico; no entanto, é me difícil defini-lo de outro modo. Quase me envergonhava admitir - sim, mesmo aqui, nesta cela de malfeitor, eu me envergonho de admitir - que o terror e o horror que o animal me infundia se viam acrescidos de uma das fantasias mais perfeitas que é possível conceber. Minha mulher tinha-me chamado várias vezes a atenção para o aspecto da mancha de pêlo branco de que já falei, e que era a única diferença aparente entre o estranho animal e aquele que eu tinha eliminado. O leitor lembrar-se-á que esta marca, embora grande, era, originariamente, bastante indefinida, mas, gradualmente, por fases quase imperceptíveis e que durante muito tempo a minha razão lutou por rejeitar como fantasiosas, assumira, finalmente, uma rigorosa nitidez de contornos. Era agora a imagem de um objeto que me repugna mencionar, e por isso eu o odiava e temia acima de tudo, e ter-me-ia visto livre do monstro se o ousasse. Era agora a imagem de uma coisa abominável e sinistra: a imagem da forca!, oh!, lúgubre e terrível máquina de horror e de crime, de agonia e de morte. Por essa altura, eu era, na verdade, um miserável maior do que toda a miséria humana. E um bruto animal cujo semelhante eu destruíra com desprezo, um bruto animal a comandar-me, a mim, um homem, feito à imagem do Altíssimo - oh!, desventura insuportável. Ah, nem de dia nem de noite, nunca, oh!, nunca mais, conheci a bênção do repouso! Durante o dia o animal não me deixava um só momento. De noite, a cada hora, quando despertava dos meus sonhos cheios de indefinível angústia, era para sentir o bafo quente daquela coisa sobre o meu rosto e o seu peso enorme, encarnação de um pesadelo que eu não tinha forças para afastar, pesando-me eternamente sobre o coração.

Sob a pressão de tormentos como estes, os fracos resquícios do bem que havia em mim desapareceram. Só os pensamentos pecaminosos me eram familiares - os mais sombrios e os mais infames dos pensamentos. A tristeza do meu temperamento aumentou até se tornar em ódio a tudo e à humanidade inteira. Entretanto, a minha dedicada mulher era a vítima mais usual e paciente das súbitas, frequentes e incontroláveis explosões de fúria a que então me abandonava cegamente.

Um dia acompanhou-me, por qualquer afazer doméstico, à cave do velho edifício onde a nossa pobreza nos forçava a habitar. O gato seguiu-me nas escadas íngremes e quase me derrubou, o que me exasperou até à loucura. Apoderei-me de um machado, e desvanecendo-se na minha fúria o receio infantil que até então tinha detido a minha mão, desferi um golpe sobre o animal, que seria fatal se o tivesse atingido como eu queria. Mas o golpe foi sustido diabolicamente pela mão da minha mulher. Enraivecido pela sua intromissão, libertei o braço da sua mão e enterrei-lhe o machado no crânio. Caiu morta, ali mesmo, sem um queixume.

Consumado este horrível crime, entreguei-me de seguida, com toda a determinação, à tarefa de esconder o corpo. Sabia que não o podia retirar de casa, quer de dia quer de noite, sem correr o risco de ser visto pelos vizinhos. Muitos projetos se atropelaram no meu cérebro. Em dado momento, cheguei a pensar em cortar o corpo em pequenos pedaços e destruí-los um a um pelo fogo. Noutro, decidi abrir uma cova no chão da cave. Depois pensei deitá-lo ao poço do jardim, ou metê-lo numa caixa como qualquer vulgar mercadoria e arranjar um carregador para o tirar de casa. Por fim, detive-me sobre o que considerei a melhor solução de todas. Decidi emparedá-lo na cave como, segundo as narrativas, faziam os monges da Idade Média às suas vítimas.

A cave parecia convir perfeitamente aos meus intentos. As paredes não tinham sido feitas com os acabamentos do costume e, recentemente, tinham sido todas rebocadas com uma argamassa grossa que a umidade ambiente não deixara endurecer. Além do mais, numa das paredes havia uma saliência causada por uma chaminé falsa ou por uma lareira que tinha sido entaipada para se assemelhar ao resto da cave. Não duvidei que me seria fácil retirar os tijolos neste ponto, meter lá dentro o cadáver e tornar a pôr a taipa como antes, de modo que ninguém pudesse lobrigar qualquer sinal suspeito.

Não me enganei nos meus cálculos. Com o auxílio de um pé-de-cabra retirei facilmente os tijolos, e depois de colocar cuidadosamente o corpo de encontro à parede interior, mantive-o naquela posição ao mesmo tempo que, com um certo trabalho, devolvia a toda a estrutura o seu aspecto primitivo.

Usando de toda a precaução, procurei argamassa, areia e fibras com que preparei um reboco que se não distinguia do antigo e, com o maior cuidado, cobri os tijolos. Quando terminei, vi com satisfação que tudo estava certo. A parede não denunciava o menor sinal de ter sido mexida. Com o maior escrúpulo, apanhei do chão os resíduos. Olhei em volta, triunfante, e disse para comigo: "Aqui, pelo menos, não foi infrutífero o meu trabalho."

A seguir procurei o animal que tinha sido a causa de tanta desgraça, pois que, finalmente, tinha resolvido matá-lo. Se o tivesse encontrado naquele momento, era fatal o seu destino. Mas parecia que o astuto animal se alarmara com a violência da minha cólera anterior e evitou aparecer-me na frente, dado o meu estado de espírito. É impossível descrever ou imaginar a intensa e aprazível sensação de alívio que a ausência do detestável animal me trouxe. Não me apareceu durante toda a noite, e deste modo, pelo menos por uma noite, desde que o trouxera para casa, dormi bem e tranquilamente; sim, dormi, mesmo com o crime a pesar-me na consciência.

Passaram-se o segundo e terceiro dias e o meu verdugo não aparecia. Mais uma vez respirei como um homem livre. O monstro, aterrorizado, tinha abandonado a casa para sempre! Nunca mais voltaria a vê-lo!

Suprema felicidade a minha! A culpa da ação tenebrosa inquietava-me pouco. Fizeram-se alguns interrogatórios que colheram respostas satisfatórias. Fez-se inclusivamente uma busca, mas, naturalmente, nada se descobriu. Dava como certa a minha felicidade futura.

No quarto dia após o crime, surgiu inesperadamente em minha casa um grupo de agentes da Polícia que procederam a uma rigorosa busca. Eu, porém, confiado na impenetrabilidade do esconderijo, não sentia qualquer embaraço. Os agentes quiseram que os acompanhasse na sua busca. Não deixaram o mínimo escaninho por investigar. Por fim, pela terceira ou quarta vez, desceram à cave. Nem um músculo me tremeu. O meu coração batia calmamente como o coração de quem vive na inocência. Percorri a cave de ponta a ponta. De braços cruzados no peito, andava descontraído de um lado para o outro. Os agentes estavam completamente satisfeitos e prontos para partir. O júbilo do meu coração era demasiado intenso para que o pudesse suster. Ansiava por dizer pelo menos uma palavra à guisa de triunfo e para tornar duplamente evidente a sua convicção da minha inocência.

- Senhores - disse por fim, quando iam a subir os degraus. - Estou satisfeito por ter dissipado as vossas suspeitas. Desejo muita saúde para todos, e um pouco mais de cortesia. A propósito, esta casa está muito bem construída (e no meu furioso desejo de dizer qualquer coisa com a vontade, mal sabia o que estava a dizer). Direi, até, que é uma casa excelentemente construída. Estas paredes... vão-se já embora, meus senhores?... Estas paredes estão solidamente ligadas. - E neste momento, por uma frenética fanfarronice, bati com força, com uma bengala que tinha na mão, na parede atrás da qual se encontrava o cadáver da minha querida esposa.

Ah!, que Deus me livre das garras do arquidemônio! Mal tinha o eco das minhas pancadas mergulhado no silêncio, quando uma voz lhes respondeu de dentro do túmulo: um gemido, a princípio abafado e entrecortado como o choro de urna criança, que depois se transformou num prolongado grito sonoro e contínuo, extremamente anormal e inumano. Um bramido, um uivo, misto de horror e de triunfo, tal como só do inferno poderia vir, provindo das gargantas conjuntas dos condenados na sua agonia e dos demônios no gozo da condenação.

Seria insensato falar dos meus pensamentos. Senti-me desfalecer e encostei-me à parede da frente. Tolhidos pelo terror e pela surpresa, os agentes que subiam a escada detiveram-se por instantes. Logo a seguir, doze braços vigorosos atacavam a parede. Esta caiu de um só golpe. O cadáver, já bastante decomposto e coberto de pastas de sangue, apareceu ereto frente aos circunstantes. Sobre a cabeça, com as vermelhas fauces dilatadas e o olho solitário chispando, estava o odioso gato cuja astúcia me compelira ao crime e cuja voz delatora me entregava ao carrasco.

Eu tinha emparedado o monstro no túmulo!
------------------------------------------------

O Homem Nu de Fernando Sabino

Ao acordar, disse para a mulher:
— Escuta, minha filha: hoje é dia de pagar a prestação da televisão, vem aí o sujeito com a conta, na certa. Mas acontece que ontem eu não trouxe dinheiro da cidade, estou a nenhum.
— Explique isso ao homem — ponderou a mulher.
— Não gosto dessas coisas. Dá um ar de vigarice, gosto de cumprir rigorosamente as minhas obrigações. Escuta: quando ele vier a gente fica quieto aqui dentro, não faz barulho, para ele pensar que não tem ninguém. Deixa ele bater até cansar — amanhã eu pago.
Pouco depois, tendo despido o pijama, dirigiu-se ao banheiro para tomar um banho, mas a mulher já se trancara lá dentro. Enquanto esperava, resolveu fazer um café. Pôs a água a ferver e abriu a porta de serviço para apanhar o pão. Como estivesse completamente nu, olhou com cautela para um lado e para outro antes de arriscar-se a dar dois passos até o embrulhinho deixado pelo padeiro sobre o mármore do parapeito. Ainda era muito cedo, não poderia aparecer ninguém. Mal seus dedos, porém, tocavam o pão, a porta atrás de si fechou-se com estrondo, impulsionada pelo vento.
Aterrorizado, precipitou-se até a campainha e, depois de tocá-la, ficou à espera, olhando ansiosamente ao redor. Ouviu lá dentro o ruído da água do chuveiro interromper-se de súbito, mas ninguém veio abrir. Na certa a mulher pensava que já era o sujeito da televisão. Bateu com o nó dos dedos:
— Maria! Abre aí, Maria. Sou eu — chamou, em voz baixa.
Quanto mais batia, mais silêncio fazia lá dentro.
Enquanto isso, ouvia lá embaixo a porta do elevador fechar-se, viu o ponteiro subir lentamente os andares... Desta vez, era o homem da televisão!
Não era. Refugiado no lanço da escada entre os andares, esperou que o elevador passasse, e voltou para a porta de seu apartamento, sempre a segurar nas mãos nervosas o embrulho de pão:
— Maria, por favor! Sou eu!
Desta vez não teve tempo de insistir: ouviu passos na escada, lentos, regulares, vindos lá de baixo... Tomado de pânico, olhou ao redor, fazendo uma pirueta, e assim despido, embrulho na mão, parecia executar um ballet grotesco e mal ensaiado. Os passos na escada se aproximavam, e ele sem onde se esconder. Correu para o elevador, apertou o botão. Foi o tempo de abrir a porta e entrar, e a empregada passava, vagarosa, encetando a subida de mais um lanço de escada. Ele respirou aliviado, enxugando o suor da testa com o embrulho do pão.
Mas eis que a porta interna do elevador se fecha e ele começa a descer.
— Ah, isso é que não! — fez o homem nu, sobressaltado.
E agora? Alguém lá embaixo abriria a porta do elevador e daria com ele ali, em pêlo, podia mesmo ser algum vizinho conhecido... Percebeu, desorientado, que estava sendo levado cada vez para mais longe de seu apartamento, começava a viver um verdadeiro pesadelo de Kafka, instaurava-se naquele momento o mais autêntico e desvairado Regime do Terror!
— Isso é que não — repetiu, furioso.
Agarrou-se à porta do elevador e abriu-a com força entre os andares, obrigando-o a parar. Respirou fundo, fechando os olhos, para ter a momentânea ilusão de que sonhava. Depois experimentou apertar o botão do seu andar. Lá embaixo continuavam a chamar o elevador. Antes de mais nada:
"Emergência: parar". Muito bem. E agora? Iria subir ou descer? Com cautela desligou a parada de emergência, largou a porta, enquanto insistia em fazer o elevador subir. O elevador subiu.
— Maria! Abre esta porta! — gritava, desta vez esmurrando a porta, já sem nenhuma cautela. Ouviu que outra porta se abria atrás de si.
Voltou-se, acuado, apoiando o traseiro no batente e tentando inutilmente cobrir-se com o embrulho de pão. Era a velha do apartamento vizinho:
— Bom dia, minha senhora — disse ele, confuso. — Imagine que eu...
A velha, estarrecida, atirou os braços para cima, soltou um grito:
— Valha-me Deus! O padeiro está nu!
E correu ao telefone para chamar a radiopatrulha:
— Tem um homem pelado aqui na porta!
Outros vizinhos, ouvindo a gritaria, vieram ver o que se passava:
— É um tarado!
— Olha, que horror!
— Não olha não! Já pra dentro, minha filha!
Maria, a esposa do infeliz, abriu finalmente a porta para ver o que era. Ele entrou como um foguete e vestiu-se precipitadamente, sem nem se lembrar do banho. Poucos minutos depois, restabelecida a calma lá fora, bateram na porta.
— Deve ser a polícia — disse ele, ainda ofegante, indo abrir.
Não era: era o cobrador da televisão.
Extraído do livro de mesmo nome, Editora do Autor - Rio de Janeiro.
--------------------------------------------------------------
A ÚLTIMA CRÔNICA – Fernando Sabino

A caminho de casa, entro num botequim para tomar café. Na realidade estou adiando o momento de escrever. A perspectiva me assusta. Gostaria de estar inspirado. Eu pretendia recolher da vida diária algo de seu disperso conteúdo humano, que a faz mais digna de ser vivida. Estou sem assunto.Lanço um último olhar fora de mim, onde vivem os assuntos que merecem uma crônica.

Ao fundo do botequim, um casal de pretos acaba de sentar-se. A compostura da humildade deixa-se acentuar pela presença de uma negrinha de seus três anos, laço na ca beça, toda arrumadinha no vestido pobre, que se instalou também à mesa: mal ousa balançar as perninhas ou correr os olhos ao redor

Passo a observá-los. O pai, depois de contar o dinheiro que discretamente retirou do bolso, aborda o garçom e aponta um pedaço de bolo sob uma redoma de vidro. A mãe limita-se a ficar observando. A meu lado, o garçom encaminha a ordem do freguês. O homem atrás do balcão apanha a porção do bolo com a mão, larga-o no pratinho – um bolo simples, amarelo-escuro – apenas uma fatia triangular.

A negrinha, contida na sua expectativa, olha a garrafa de Coca-Cola e o pratinho que o garçom deixou à sua frente. Por que não começam a comer? Vejo que os três –pai, mãe e filha –obedecem, em torno à mesa, a um discreto ritual. A mãe remexe na bolsa de plástico preto e brilhante, retira alguma coisa. O pai se mune de uma caixa de fósforos e espera. Ninguém mais os observa além de mim.

São três velinhas brancas, minúsculas, que a mãe espeta caprichosamente na fatia de bolo. E enquanto ela serve a Coca-Cola, o pai risca o fósforo e acende as velas.Como a um gesto ensaiado, a menininha repousa o queixo na mesa e sopra as velas. Imediatamente põe-se a bater palmas, cantando num balbucio, a que os pais se juntam, discretos:” Parabéns a você...” Depois, a mãe recolhe as velas, torna a guardá-las na bolsa. A negrinha agarra o bolo com as mãos e pôe-se a comê-lo. A mulher está olhando para ela com carinho – ajeita-lhe a fitinha do cabelo, limpa o farelo do bolo que lhe cai ao colo. O pai corre os olhos pelo botequim, satisfeito e de súbito, dá comigo a observá-los. Nossos olhos se encontram, ele se perturba, constrangido, vacila, ameaça abaixar a cabeça, mas acaba sustentando o olhar e enfim se abre num sorriso.

Assim eu quereria a minha última crônica: que fosse pura como esse sorriso.
--------------------------------------------------------

O Ator - Luís Fernando Veríssimo
O homem chega em casa, abre a porta e é recebido pela mulher e os dois filhos, alegremente. Distribui beijos entre todos, pergunta o que há para jantar e dirige-se para o seu quarto. Vai tomar um banho, trocar de roupa e preparar-se para algumas horas de sossego na frente da televisão antes de dormir. Quando está abrindo a porta do seu quarto, ouve uma voz que grita:

-Corta!

O homem olha em volta, atônito. Descobre que sua casa não é uma casa, é um cenário. Vem alguém e tira o jornal e a pasta das suas mãos. Uma mulher vem ver se a sua maquilagem está bem e põe um pouco de pó no seu nariz.

Aproxima-se um homem com um script na mão dizendo que ele errou uma das falas na hora de beijar as crianças.

-O que é isso? - pergunta o homem. - Quem são vocês? O que estão fazendo dentro da minha casa? Que luzes são essas?

-O que, enlouqueceu? - pergunta o diretor. - Vamos ter que repetir a cena.

Eu sei que você está cansado, mas...

-Estou cansado, sim senhor. Quero tomar meu banho e botar meu pijama.

Saiam da minha casa. Não sei quem são vocês, mas saiam todos! Saiam!

O diretor fica parado de boca aberta. Toda a equipe fica em silêncio, olhando para o ator. Finalmente o diretor levanta a mão e diz:

-Tudo bem, pessoal. Deve ser estafa. Vamos parar um pouquinho e...

-Estafa coisa nenhuma! Estou na minha casa, com a minha... A minha família! O que vocês fizeram com ela? Minha mulher! Os meus filhos!

O homem sai correndo entre os fios e os refletores, à procura da família. O diretor e um assistente tentam segurá-lo. E então ouve-se uma voz que grita:

-Corta!

Aproxima-se outro homem com um script na mão descobre que o cenário, na verdade, é um cenário. O homem com um script na mão diz:

-Está bom, mas acho que você precisa ser mais convincente.

-Que-quem é você?

-Como, quem sou eu? Eu sou o diretor. Vamos refazer esta cena. Você tem que transmitir melhor o desespero do personagem. Ele chega em casa e descobre que sua casa não é uma casa, é um cenário. Descobre que está no meio de um filme. Não entende nada.

-Eu não entendo...

-Fica desconcertado. Não sabe se enlouqueceu ou não.

-Eu devo estar louco. Isto não pode estar acontecendo. Onde está minha mulher? Os meus filhos? A minha casa?

-Assim está melhor. Mas espere até começarmos a rodar. Volte para a sua marca. Atenção, luzes...

-Mas que marca? Eu não sou personagem nenhum. Eu sou eu! Ninguém me dirige. Eu estou na minha própria casa, dizendo as minhas próprias falas...

-Boa, boa. Você está fugindo um pouco do script, mas está bom.

-Que script? Não tem script nenhum. Eu digo o que quiser. Isto não é um filme. E mais, se é um filme, é uma porcaria de filme. Isto é simbolismo, ultrapassado. Essa de que o mundo é um palco, que tudo foi predeterminado, que não somos mais do que atores... Porcaria!

-Boa, boa. Está convincente. Mas espere começar a filmar. Atenção...

O homem agarra o diretor pela frente da camisa.

-Você não vai filmar nada! Está ouvindo? Nada! Saia da minha casa.

O diretor tenta livrar-se. Os dois rolam pelo chão. Nisto ouve-se uma voz que grita:

-Corta!

-----------------------------------------------------------------------------------